Acordaste insuportável depois da sesta! Até que por fim, lá me mostraste a afta que te andava a chatear. No caminho para a farmácia, onde procurava encontrar-te alívio, já ias aos pulinhos meios desconjuntados, de pura felicidade. Perante tantas distrações, a afta tinha passado, milagrosamente, para segundo plano. E foi com este entusiasmo e disposição que entraste pela milésima vez na loja de animais do costume.
A senhora olhou-nos com uma mescla de tédio e mau-humor. Consegui imaginar o que lhe ia no pensamento: “estas acham que isto é um parque de diversões”. Perante o ar recriminador, lá me decidi. “Bom, é melhor finalmente comprar qualquer coisa”, pensei cá para mim.  E entre o chihuahua, o papagaio e um peixinho dourado, este último pareceu-me a melhor opção.
“Escolhe o peixinho, amor”. Mais uma vez, não consegui evitar ver de soslaio a expressão da senhora. Ia jurar que estava a pensar algo do género: “que mãe fofinha (em irónicos)”. Não foi dito ou pronunciado. Foi só aquele risinho de frete, meio de lado, sabem como é?
Apontaste para o primeiro que passou entre aquele emaranhado de peixes. Era provavelmente o mais feio, com um ar adoentado. Branquela, com umas manchas cinzentas e um laranja fusco. Perante a tua escolha, lá disse entredentes à senhora: “pode ser um qualquer”. Mas desta vez, ela foi bastante prestável: viemos para casa com o enfermo!
Já cá fora, perguntei-te: “Como é que vamos chamar ao peixe, filha?”. “Peixe” – respondeste tu. “Não, mas o nome do peixe?”. “Peixe” – respondeste tu, novamente. Isto ainda durou uns quantos minutos. Até que decidi intervir na nossa conversa super produtiva. “Bom, ele é laranjinha (“mais ou menos”, disse cá para mim). “Que tal Laranjinha, Francisca?”. Confesso que fiquei abismada com o meu laivo de criatividade. Chamar a um peixe meio laranja de Laranjinha é ou não é genial? Pois, também não estava convencida…
Quando chegámos a casa insisti: “Então filhinha, qual o nome do peixe?”. Tiveste uma epifania: “ATÚM” (com acento e tudo). E foi assim, que em dia de eurovisão, ganhámos o nosso primeiro festival da canção e o nosso primeiro peixe, que afinal não é dourado e até podia ser Salvador mas ficou a chamar-se ATUM!

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