Eu ia à bola com o meu pai. Domingo era dia de ir às Antas. Tu ias pela táctica e eu pela festa. Em comum o azul e branco. Víamos o jogo calados e esperávamos o livre do Timofte bater nas malhas para gritar golo. De resto fazíamos jus ao nome do estádio: belas antas, tu e eu.

Alguns anos depois chegou o meu irmão e sempre achei que aquela dupla fazia mais sentido. Eu sempre soube o que era um fora de jogo ou um 4-3-3 mas nunca tive jeito para distinguir um médio de um trinco então eu fui ficando e o meu jogo com o tempo virou outro. Já o meu irmão implicava-se nas coisas, discutia e tinha aquele ar de puto reguila e insurrecto, à moda do Porto, que se fazia notar. (Engraçado como há muito desse Tiago na minha Francisca de hoje.) Por isso, foi comovente quando, principalmente depois de me ter separado, ouvi do meu pai algumas tiradas sobre o meu pós-doc em dar bem conta do recado sozinha. O meu pai, um feminista!

O meu pai só tem os domingos. E, sempre que pode faz do sofá a sua religião e do National Geographic o Santo Graal. Entre o meu set na novela das onze e a pesca ao atum no Alasca, prefere mil vezes ver lançar o anzol. Não fala muito e tem aquele ar de aceitação e abnegação que sempre me intrigou. Chamemos-lhe paz de espírito. Pergunto-me como é que com um pai que caiu em alprazolam à nascença, eu fui ganhar ansiedade como nome do meio…

Lembro-me de ser muito pequena, e a casa de baixo estar em construção. No meio do cimento e dos fios terra, uma máquina de lavar velha, qual mesa de centro minimalista. Tinha vindo da tia Laide e tu ias tentar recuperá-la para nós. Desfizeste e montaste o puzzle, sem livro de instruções e ela sobreviveu até à adolescência, minha e dela. Tens aquela capacidade de ver o interior de todas as coisas e de as consertar mesmo quando os cuidados paliativos parecem certos. Já eu tenho por hábito olhar para dentro das pessoas e ver peças soltas, no tambor da máquina, em pré-lavagem.

Não sei onde foi buscar isso. Não foi nos bancos de escola porque pouco tempo lá passou. Está-lhe no sangue. Já na testa tem escrito easy going e no  DNA professor pardal. Para além disso, era giro que dói, com aquela pinta de MacGyver. Pára tudo. Antes que me comecem a dar as condolências, o “era” é só força de expressão, aquela arrogância de se achar que a beleza é exclusiva da juventude.

Mas depois veio o Freud e pronto, aí deu tudo errado: agora onde é que eu encontro outro igual?

Feliz dia do PAI!

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