O glúten é uma proteína presente nos grãos de trigo. Bom, para ser mais precisa o glúten é uma mistura complexa de centenas de proteínas distintas mas relacionadas entre si, maioritariamente denominadas por gliadina e glutenina. Proteínas similares existem no centeio, cevada e as aveninas na aveia e são coletivamente referidas como “glúten”. 1

O glúten desempenha um importante papel para a melhoria da textura, retenção de humidade e sabor, sobretudo de produtos de panificação, bolos e afins.

A ingestão diária média de glúten numa dieta ocidental é cerca de 5 a 20 g/dia e o seu consumo tem sido implicado em vários distúrbios. 1

Contudo, é importante que fique claro que doenças relacionadas com o glúten, como a Doença Celíaca (DC) e a alergia do glúten, são doenças raras, afetando aproximadamente 1% a 3% da população em diferentes partes do mundo. 2-4

No entanto, apesar da raridade dessas doenças, nas últimas décadas, houve um aumento significativo na adoção de uma alimentação e estilo de vida livre de glúten. 5

Um estudo Australiano comparou produtos com e sem glúten e o seu impacto na saúde dos indivíduos alvo desta investigação. Este, chegou à conclusão que é improvável que o consumo de produtos “glúten free” apresentem benefícios para a saúde, a menos que haja clara evidência da existência dos transtornos acima supracitados. 6

A Sociedade Europeia de Gastroenterologia, Hepatologia e Nutrição Pediátrica (ESPGHAN) recomendou em 2008, com base em dados observacionais, evitar a introdução quer precoce de glúten (<4 meses), quer tardia (após os 7 meses). No mesmo documento, referia que este deveria ser introduzido na alimentação do lactente enquanto este estivesse a ser amamentado, pois a amamentação parecia ser um factor de proteção contra a doença celíaca (DC). 7

Nesta doença, a conjugação do consumo de glúten, com a suscetibilidade genética do indivíduo, é essencial para o desenvolvimento de uma reação auto-imune de evolução insidiosa que afeta o intestino e outros órgãos. 8

Novas evidências levaram o ESPGHAN a rever as recomendações de 2008 chegando-se às seguintes conclusões:

Tempo de introdução – Neste documento de 2016, o ESPGHAN diz que o glúten pode ser introduzido na dieta do bebé a qualquer momento entre os 4 e os 12 meses completos de idade, uma vez que o risco de induzir DC através de uma dieta contendo glúten aplica-se exclusivamente a bebés/crianças com essa predisposição genética. 9

Em crianças com alto risco de DC, a introdução precoce de glúten (4 vs 6 meses ou 6 versus 12 meses) está associada ao desenvolvimento precoce de autoimunidade e DC, mas a sua incidência na infância tardia é semelhante. O que eu quero com isto dizer é: se uma criança “tiver que ter” a doença irá tê-la independentemente de introduzir o glúten aos 4 ou 12 meses. O que acontece é que se introduzir aos 4 meses, quando há predisposição genética,  a doença irá manifestar-se mais cedo. 9

Amamentação – Embora a amamentação deva ser promovida por todos os seus benefícios para a saúde do bebé, o que é certo é que se chegou também à conclusão, nestes estudos mais recentes, que nem a amamentação, nem a amamentação durante a introdução do glúten demonstraram reduzir o risco de DC. 9

Quantidade de glúten – Com base em dados observacionais, o ESPGHAN sugere que o consumo de grandes quantidades de glúten deve ser evitado durante as primeiras semanas/meses após a sua introdução. 9

Tipo de glúten – Não foram feitas quaisquer recomendações neste sentido. 8

Famílias com risco elevado (familiar em primeiro grau com DC) – Não foram feitas quaisquer recomendações neste sentido, assumindo-se que as recomendações serão as mesmas para todas as crianças: com ou sem risco. 9

Como podem ver muitas perguntas permanecem ainda sem resposta, por isso só nos resta esperar que o futuro nos esclareça muitos dos aspectos relacionados com esta doença.

  1. Translational Research Center for Gastrointestinal Disorders, KU Leuven, Leuven, Belgium. What is gluten? . J Gastroenterol Hepatol.2017 Mar;32 Suppl 1:78-81. doi: 10.1111/jgh.13703.
  2. Mustalahti K, Catassi C, Reunanen A, et al. The prevalence of celiac disease in Europe: results of a centralized, international mass screening project. Ann Med 2010;42:587–95. 3.
  3. Myle´us A, Ivarsson A, Webb C, et al. Celiac disease revealed in 3% of Swedish 12-year-olds born during an epidemic. J Pediatr Gastroenterol Nutr 2009;49:170–6. 4. Catassi C, Gatti S, Fasano A.
  4. The new epidemiology of celiac disease. J Pediatr Gastroenterol Nutr 2014;59 (suppl 1):S7–9.
  5. Niland B, Cash B. Health Benefits and Adverse Effects of a Gluten-Free Diet in Non–Celiac Disease Patients. Gastroenterol Hepatol (N Y). 2018 Feb; 14(2): 82–91.
  6. Wu JH, Neal B et al. Are gluten-free foods healthier than non-gluten-free foods? An evaluation of supermarket products in Australia. Br J Nutr.2015 Aug 14;114(3):448-54. doi: 10.1017/S0007114515002056. Epub 2015 Jun 29.
  7. Agostini C, Decsi T et al. Complementary Feeding: A Commentary by the ESPGHAN Committee on Nutrition. Journal of Pediatric Gastroenterology and Nutrition. 46:99–110, 2008 by European Society for Pediatric Gastroenterology, Hepatology, and Nutrition and North American Society for Pediatric Gastroenterology, Hepatology, and Nutrition
  8. Husby S, Koletzko S, Korponay-Szabo IR, et al. Guidelines for the diagnosis of coeliac disease. J Pediatr Gastroenterol Nutr 2012;54: 136 – 60.
  9. Gluten Introduction and the Risk of Coeliac Disease: A Position Paper by the European Society for Pediatric Gastroenterology, Hepatology, and Nutrition. J Pediatr Gastroenterol Nutr. 2016; 62(3): 507-513.

 

 

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