Quando posso dar água ao meu bebé? E bebidas vegetais? A partir dos 12 meses, que leite posso dar ao meu filho? Os leites de crescimento são recomendados? E sumo de fruta natural, posso dar à vontade? Afinal, o quê que as crianças podem beber?

Estabelecer padrões alimentares saudáveis ​​na primeira infância (0 a 5 anos) é importante para ajudar a prevenir futuras doenças crónicas relacionadas com a alimentação, bem como para apoiar condições físicas e cognitivas ideais para o crescimento e desenvolvimento da criança.

A ingestão de bebidas é fundamental na primeira infância, pois estas contribuem significativamente para a ingestão alimentar global durante esse período, sendo fontes importantes de nutrientes. 

No entanto, muitas bebidas também contêm açúcares adicionados e gorduras saturadas, que podem ser prejudiciais quando consumidas em excesso.

O consumo excessivo ou inadequado de certas bebidas ​​na primeira infância pode contribuir para o risco de doenças crónicas relacionadas com a dieta, como a obesidade, diabetes tipo 2 ou cárie dentária.

Isso torna as bebidas um alvo crítico para melhorar a saúde e o bem-estar dos bebés e crianças pequenas. Face ao exposto e dada a necessidade de uma abordagem abrangente e consistente de recomendações baseadas em evidências científicas, a Academia de Nutrição e Dietética, a Academia Americana de Odontopediatria (AAPD), a Academia Americana de Pediatria e a Associação Americana de Cardiologia (AHA), reuniram-se para juntas elaborar as seguintes recomendações:

Bebés – 0 a 6 meses

Precisam apenas de leite materno ou fórmula infantil para obter uma hidratação e nutrição adequada.

Bebés – 6 a 12 meses

Devem beber leite materno ou fórmula infantil para assegurar a maioria das suas necessidades nutricionais diárias.. Assim que começarem a comer alimentos sólidos, ou seja, algures entre os 4 e os 6 meses, podem e devem começar a beber água durante e fora das refeições. Tal ajudará o bebé a desenvolver por exemplo a habilidade de beber pelo copo e a e aprender a gostar do sabor da água, o que leva tempo.

Bebés com menos de 12 meses não devem beber:

– Sumo natural

– Leite (vaca, cabra…)

– Leites aromatizados (por exemplo, chocolate, morango)

– Fórmulas de “transição” ou “desmame” (às vezes chamadas de leites infantis ou leites de crescimento)

– Leites à base de plantas / bebidas vegetais (por exemplo, amêndoa, arroz, aveia, coco)

– Bebidas com cafeína (por exemplo, refrigerante, café, chá, bebidas energéticas)

– Bebidas adoçadas com baixas calorias (por exemplo, bebidas “diet” ou “leves”, incluindo as adoçadas com stevia, sucralose ou outros adoçantes com baixas calorias)

– Bebidas adoçadas com açúcar (por exemplo, refrigerantes, bebidas de frutas e bebidas com sabor a frutas, bebidas desportivas, bebidas energéticas, águas açucaradas e bebidas açucaradas de café e chá)

Crianças – 12 a 24 meses

Água

Devem beber 1 a 4 chávenas de água por dia. A quantidade de água que cada criança precisa pode variar de um dia para o outro com base na sua atividade física, clima ou quantidade de líquidos que recebe de outras bebidas e alimentos.

Leite

idealmente o bebé deveria continuar a beber leite materno mas, na sua impossibilidade, a partir dos 12 meses pode ser introduzido o leite integral pasteurizado (leite do nosso). A quantidade recomendada é de 2 a 3 chávenas por dia. Assim, crianças que consumam fórmula podem, aos 12 meses, trocar a fórmula por leite de vaca pasteurizado. 

À medida que as crianças se aproximam dos 2 anos de idade e passam a comer mais comida nas refeições, elas precisam de menos leite.

Normalmente, o leite recomendado é leite de vaca gordo ou meio-gordo. Contudo, existindo histórico familiar de obesidade ou doença cardíaca, o leite com baixo teor de gordura pode ser considerado, tal deve ser avaliado em consulta.

Sumo

A ingestão de sumo, deve ser restrita apenas ao sumo natural (100% fruta) e mesmo assim a criança não deve beber mais do que ½ chávena de sumo natural por dia.

Na medida do possível, as crianças devem suprir as recomendações diárias de fruta, consumindo frutas frescas, secas ou congeladas sem adição de açúcar, em vez de beber sumo.

Se isso não for possível, uma combinação de frutas inteiras e sumo de frutas natural (100% fruta) é adequada, desde que a criança não ingira mais do que o limite superior de ½ chávena de sumo por dia.

Isso ocorre porque o sumo, mesmo sendo 100% sumo de fruta, pela sua elevada osmolaridade, acidez, efeito laxante, anorexiante e cariogénico (cáries dentárias), pode ter um impacto negativos na saúde da criança e ter um efeito de deseducação do paladar, condicionando a procura do sabor doce associado à bebida, com consequente rejeição da água.

Bebidas vegetais

Os leites à base de plantas/bebidas vegetais não são recomendados como substitutos completos do leite comum. As evidências indicam que, com exceção do leite de soja enriquecido, muitas alternativas de leite à base de plantas não possuem os principais nutrientes encontrados no leite de vaca. Mesmo quando esses leites têm nutrientes extras adicionados, o nosso corpo pode não absorver bem esses nutrientes.

Contudo, estas alternativas vegetais, desde que não açucaradas e fortificadas podem ser uma boa opção se uma criança for alérgica a produtos lácteos, intolerante à lactose ou se a família em questão não consumir laticínios. Não deixe de consultar o seu médico ao escolher um leite à base de plantas. É importante garantir que a dieta do seu filho tenha as quantidades certas de nutrientes essenciais encontrados no leite, como proteínas, cálcio e vitamina D, essenciais para o crescimento e desenvolvimento saudáveis.

Os leites aromatizados, as fórmulas de “transição” ou “desmame” (às vezes chamadas de leites infantis ou leites de crescimento), bebidas com cafeína (por exemplo, refrigerante, café, chá, bebidas energéticas), bebidas adoçadas com baixas calorias (por exemplo, bebidas “diet” ou “leves”, incluindo as adoçadas com stevia, sucralose ou outros adoçantes com baixas calorias) e bebidas adoçadas com açúcar (ex: refrigerantes) devem SER EVITADAS!

Crianças – 2 a 3 anos

Mantêm-se todas as recomendações anteriores, acresce apenas a necessidade das crianças de 2 a 3 anos de idade transitarem de um leite pasteurizado gordo para um leite pasteurizado com baixo teor de gordura. A quantidade recomendada passa a ser de 2 chávenas por dia (limite máximo).

A transição para os leites com baixo teor de gordura ajuda as crianças a seguirem as recomendações da ingestão diária total de calorias e gorduras, o que ajuda a promover um peso saudável. No entanto, se seu filho tiver baixo peso ou tiver outras necessidades, consulte seu médico ou nutricionista para avaliar a situação.

Crianças – 4 a 5 anos

Mantêm-se todas as recomendações anteriores, mas o aporte de água aumenta ligeiramente de 1,5 a 5 chávenas por dia. O limite máximo de leite é agora de 2 copos e meio. O limite máximo de sumo natural passa a ser de 3/4 de chávena.

Concluindo:

As principais bebidas de uma criança entre os 6 meses e os 5 anos de idade devem ser água e leite. O sumo natural é permitido mas a sua ingestão é limitada. As bebidas vegetais devem igualmente ser evitadas, com exceção da bebida de soja que pode ser permitida em alguns padrões alimentares com necessidades específicas. A partir dos 12 meses o bebé pode e deve continuar a ser amamentado mas no caso de ter que introduzir outro leite deve optar por leite de vaca integral pasteurizado. O mesmo acontece para um bebé alimentado a fórmula que, a partir dos 12 meses pode e deve mudar para leite de vaca integral pasteurizado. Os leites infantis, de transição ou de crescimento são desnecessários e a sua relação qualidade/preço não justifica o seu recurso. Bebidas com cafeína e energéticas são totalmente proibidas, bem como bebidas açucaradas, tais como refrigerantes. Também as bebidas adoçadas com edulcorantes são desaconselhadas.

Notas pessoais:

  • Algumas vezes prescrevo quantidades muito pequenas de sumo natural (1 c. de chá/dia) em situações particulares, como casos de bebés (+ 6meses) com obstipação grave ou no caso do sumo de laranja ou limão para potencial a absorção de ferro. Tal é a título excepcional e em quadros clínicos específicos.
  • Também a título meramente excepcional, uma papa caseira para bebé (+ 6 meses) ou criança, pode ser feita com bebida vegetal em vez de água. Desde que o aporte diário de leite (materno, fórmula) se mantenha invariável e que a bebida em questão não contenha açúcar ou aditivos.
  • Não recomendo os pouch, saquinhos de fruta, que o bebé (6 – 12 meses) bebe. A fruta deve ser sempre que possível dada inteira, ou quando sob a forma de puré deve ser dada à colher. No entanto, em SOS e muito raramente podem ser uma alternativa possível para suprir o aporte de fruta diário.

Referências bibliográficas

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  2. Consensus Statement. Durham, NC: Healthy Eating Research, 2019. Available at http://healthyeatingresearch.org. This Consensus Statement is based on the full report of this expert panel.
  3. The full list of citations can be found in the full report: Lott M, Callahan E, Welker Duffy E, Story M, Daniels S. Healthy Beverage Consumption in Early Childhood: Recommendations from Key National Health and Nutrition Organizations. Technical Scientific Report. Durham, NC: Healthy Eating Research, 2019. Available at http://healthyeatingresearch.org.
  4. Skinner JD, Carruth BR, Wendy B, Ziegler PJ. (2002) Children’s food preferences: a longitudinal analysis. J Am Diet Assoc. 102(11):1638-47.
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  11. Welker EB, Jacquier EF, Catellier DJ et al. (2018). Room for Improvement Remains in Food Consumption Patterns of Young Children Aged 2-4 Years. J Nutr 148, Suppl 3. https://doi.org/10.1093/jn/nxx053.
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  14. https://healthydrinkshealthykids.org/parents/
  15. https://www.spp.pt/UserFiles/file/Protocolos/Alimentacao_Nutricao_Lactente.pdf

7 Comments

  • Marisa Fernandes diz:

    Boa tarde
    O meu bebé tem uma ano e vou iniciar o leite de vaca, mas ainda dou de mamar quantos ml devo dar? Eu passo o dia com ele a noite como vou trabalhar, estou a pensar dar um biberão de 200ml e depois quando chegasse dava de mamar novamente.

  • Joana Rodrigues diz:

    Olá Sandra,

    Não relacionado com o assunto em questão (muito esclarecedor já agora…imaginava que os leites de crescimento teriam alguma vantagem nutricional relativamente ao leite de vaca “simples”), mas como fala nas saquetas de fruta, fiquei curiosa acerca da sua opinião sobre as mesmas (falo das que contèm 100% fruta). Sendo que será sempre preferível a fruta fresca, recomenda o recurso às mesmas para situações em que os pais nem sempre têm essa opçao disponível, por exemplo para enviar para a creche para adoçar 1 iogurte natural?
    Obg pelo seu valioso contributo nestas questões!

  • Cidália diz:

    Boa tarde, em relação ao leite. Se em vez de oferecer leite de vaca depois dos 12 meses se mantém o leite adaptado até aos 3 anos é prejudicial? Refiro-me especificamente ao LA que sempre bebeu complementarmente ao leite materno (continua a ser amamentado)
    Não é relevante, para mim, a relação qualidade/preço, mas sim se pode ser prejudicial ou menos aconselhável oferecer LA em vez de leite de vaca.
    Obrigada

  • Anónimo diz:

    Olá, tinha a mesma dúvida e para mim é tb irrelevante a questão do valor…Li os links da bibliografia postada e as conclusões dos estudos são no sentido de que a partir dos 12 meses é sempre preferível o leite da vaca pasteurizado ao LA (leite de vaca contém menos sódio, menos açucares e mais proteína entre outros aspetos). Também dava LA ao meu bebé de 15 meses, vou optar por leite de vaca pasteurizado biológico.

  • Sandra Santos diz:

    Olá Marisa!
    Não consigo avaliar só com base nessa informação mas se continuar a dar mama, durante o dia, em livre demanda, não vejo problema em complementar com um biberão de leite de vaca quando está ausente.
    Beijinhos,
    Sandra

  • Sandra Santos diz:

    Olá! É uma dúvida muito comum e não existia uma posição formal a este respeito. Estas orientações, embora americanas aprecem-me fazer todo o sentido.
    Beijinhos,
    Sandra

  • Sandra Santos diz:

    Olá Joana!
    Em situações pontuais, não me parece existir qualquer problema. Sempre tendo em consideração que a criança deve comer preferencialmente fruta fresca.
    Beijinhos,
    Sandra

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