Nos últimos dias, muito se tem falado sobre a relação entre a COVID-19 e a vitamina D.

A vitamina D é classicamente conhecida pelo seu importante papel na regulação dos níveis corporais de cálcio e fósforo e da mineralização óssea. Importa porém dizer que a vitamina D não é apenas uma vitamina mas também uma hormona, cujos efeitos biológicos vão muito mais além da regulação do metabolismo ósseo.1

Ela desempenha um papel importante em diversas patologias e processos fisiopatológicos, tais como diabetes, doenças autoimunes e imunossupressão, doenças neurodegenerativas, inflamação, doença cardiovascular, hipertensão, distintos tipos de cancro (pele, próstata, cólon, mama, sangue), entre outras. 1

Em circunstâncias normais, é através da exposição solar e não da alimentação, que obtemos a maior parte da vitamina D. 2

Face ao exposto, o mediatismo deste tema advém de um conjunto de circunstâncias que envolvem não só o reconhecimento da sua importância na saúde humana como da constatação de que:

1. Uma parte significativa da nossa população, portuguesa e europeia, poderá não ter os níveis adequados desta vitamina; 3

2. Neste momento, a distribuição geográfica da pandemia parece ser mais evidente em países localizados acima do trópico de câncer,  que são também aqueles cujas populações têm menor exposição solar e consequentemente maior risco de deficiência desta vitamina.

3. Pelo facto de vários estudos epidemiológicos em adultos e crianças demonstraram que a deficiência de vitamina D está associada ao aumento da susceptibilidade e gravidade de infecções, particularmente do trato respiratório. 4

Com efeito, um elevado número de adultos saudáveis tem demonstrado baixos níveis séricos de vitamina D, principalmente no final da estação do inverno. 5

As pessoas que estão em casa, ou institucionalizadas e as que trabalham à noite podem ter deficiência de vitamina D, assim como muitos idosos que têm exposição limitada à luz solar. 6

Numa amostra representativa de 1500 idosos portugueses, o estudo Nutrition UP65, verificou-se que uma proporção muito significativa destes, cerca de 40%, exibem níveis de Deficiência, ao passo que 30% têm Insuficiência. 3

Efetivamente são inúmeros os estudos que relacionam a deficiência em vitamina D e o aumento do risco de muitas doenças, incluindo doenças infecciosas, como por exemplo: Gripe e Infecções Respiratórias 7,8,9, Infecções Pulmonares 10, Pneumonia 11, entre muitas outras infeções víricas. Assim, como o efeito benéfico significativo da suplementação com vitamina D na diminuição do risco de sofrer pelo menos uma infecção aguda do tracto respiratório. 12

Para além disso, a COVID-19 foi identificada pela primeira vez no inverno de 2019 e afetou principalmente pessoas de meia-idade e idosos, que são justamente uma população de risco para a deficiência desta vitamina. Em Turim, dois cientistas, através da análise de dados preliminares coletados em pacientes hospitalizados por Covid-19, reportam uma prevalência muito alta de hipovitaminose D, ou deficiência desta vitamina no organismo destes pacientes. Além disso, registou-se uma associação entre a carência de vitamina D em bezerros e o aumento do risco de doenças infecciosas por coronavírus bovino. 13

Numa revisão sistemática publicada no Journal of Medical Virology, a vitamina D foi sugerida como podendo ser uma das opções terapêuticas para este novo vírus. 14

Contudo, até à data, não existe evidência científica de que a suplementação em vitamina D ajude na prevenção e/ou tratamento da COVID-19 ou que reduza a incidência e mortalidade pela infeção.

Não existem ainda estudos científicos que possam confirmar ou não a existência desta relação entre a COVID-19 e a vitamina D. Infelizmente, ainda não houve tempo para isso.

Importa referir que o que se passa numa classe de vírus não é habitualmente transponível diretamente para outra classe de vírus. Isto quer dizer que embora possa existir uma relação favorável de uma intervenção por  suplementação em vitamina D na gripe “banal” não podemos concluir que teríamos um efeito semelhante na COVID-19. A vitamina D pode ter uma relação diferente com os diferentes vírus.

Posto isto, vale a pena fazer suplementação em vitamina D ou não?

Relativamente à vitamina D, em Portugal, não existe nenhum estudo que avalie toda a população portuguesa com o recurso a uma amostra representativa, pelo que os dados disponíveis se referem apenas a algumas subpopulações específicas, nomeadamente idosos, crianças e indivíduos com algumas patologias. Em todos os grupos foram registados níveis baixos desta vitamina. 3

Uma dieta saudável e equilibrada, pode fornecer todos os outros nutrientes que você precisa, nomeadamente vitaminas e minerais. Contudo, é improvável que forneça vitamina D suficiente se você não apanhar sol suficiente. 2

A alimentação apresenta problemas como fonte de vitamina D. Os dados do Inquérito Alimentar Nacional 2015-2016 mostram que cerca de 95% dos Portugueses não ingere a quantidade preconizada, um fenómeno que não espanta dada a escassez de fontes alimentares, que se resumem ao peixe e alimentos fortificados, ainda raros em Portugal. 3

Os níveis de UBV num país como Portugal são regra geral suficientes (Índice UV acima de 3) durante o período da Primavera e do Verão, mas incapazes de fazer a pele sintetizar esta vitamina nos meses do Outono e do Inverno.3

Assim, esta importante fonte apenas está disponível durante parte do ano, acrescendo que a utilização de protetor solar praticamente anula a sua síntese cutânea em qualquer estação. Se a isto acrescentarmos os indivíduos com baixo número de horas ao ar livre, os que cobrem grande parte do corpo com roupa, os indivíduos de pele mais escura e os idosos (nestes dois grupos a capacidade de sintetizar a vitamina D está diminuída), temos reunidas as condições para baixos níveis de síntese cutânea desta vitamina. 3

Agora estamos na Primavera mas para muitos, por causa do contexto de isolamento/reclusão domiciliária, provocado pela  COVID-19, este é o maior de todos os Invernos e a Primavera ser-nos-á roubada.

Nestas circunstâncias, se a sua exposição solar estiver comprometida, deve SIM considerar tomar um suplemento diário de vitamina D. 2

No que toca à dosagem, será fundamental que não se automedique e que discuta a sua situação particular com o seu médico ou nutricionista. Doses diárias e baixas, parecem ser muito mais seguras e eficazes do que comprimidos mais esporádicos com doses muito elevadas desta vitamina. 15

Não obstante tais considerações, pode também procurar incluir os seguintes alimentos na sua dieta:

  1. Peixes gordos como salmão, sardinha, sardinha, truta, arenque, arenque e enguia contêm quantidades razoáveis de vitamina D.
  2. O óleo de fígado de bacalhau contém muita vitamina D, mas não tome se estiver grávida.
  3. Gema de ovo, carne e leite contêm pequenas quantidades, mas isto varia durante as estações do ano. Margarina, alguns cereais de pequeno-almoço, fórmula infantil e alguns iogurtes têm adicionado vitamina D. 2

Concluindo: existe ou não relação entre a COVID-19 e a vitamina D?

O Diretor Geral da Organização Mundial de Saúde, Tedros Adhanom, apelou para que cuidássemos da nossa alimentação, durante este período. A resposta imunológica tem se mostrado frequentemente enfraquecida por uma nutrição inadequada em muitos sistemas modelo, bem como em diversos estudos. 14 Apesar do estado nutricional do hospedeiro/infetado, até muito recentemente, não ter sido considerado como um factor relacionado com o aparecimento de doenças infecciosas virais, já há autores que sugerem a avaliação do estado nutricional dos pacientes infectados pela COVID-19 antes da administração de outros tratamentos terapêuticos gerais. 14

Neste momento navegamos todos às escuras. Perante esta tormenta, defendo que devemos ser humildes e assumir o pouco que sabemos sobre este vírus. Neste momento, não existe, ainda, nenhum medicamento específico para o SARS-COV-2 demonstradamente eficaz de acordo com as exigências científicas da medicina baseada na prova. A escassez de evidência científica é transversal a todos: cientistas, médicos, etc.. Não será então altura de mudar de paradigma?

Se existe relação? A resposta é NIM, ou seja não fazemos ideia. O que sabemos é que a suplementação em doses adequadas de vitamina D mostrou-se segura.15

Deste modo, a vitamina D pode não ter qualquer efeito na prevenção e tratamento da infeção por COVID-19 (não sabemos) mas pelo menos, se a sua exposição solar for limitada face à situação atual, a suplementação poderá garantir níveis adequados desta vitamina, contribuindo para o reforço do seu sistema imunitário, saúde e bem-estar geral. 2

Se algum dia se vier a descobrir uma associação positiva entre os níveis de vitamina D e a prevenção ou tratamento da COVID-19, tanto melhor! Por enquanto, o ideal e desejável é que discuta a sua situação particular com um profissional de saúde.

Mantenha-se saudável e cuide da sua nutrição!

Nota: Sobre este assunto pode ainda ler o  artigo: Há algum alimento ou suplemento alimentar que possa prevenir ou ajudar no tratamento da covid-19?

Bibliografia

  1. Pereira, Fabio; Almeida, Maria Daniel Vaz de. Vitamina D: uma verdadeira hormona. Nutrícias. Publisher: Associação Portuguesa de Nutricionistas. No. 8: 42-47. https://sigarra.up.pt/fcnaup/en/pub_geral.pub_view?pi_pub_base_id=47749
  2. COVID-19 / Coronavirus – Advice for the General Public. British Dietetic Association. 16 Mar 2020 https://www.bda.uk.com/resource/covid-19-corona-virus-advice-for-the-general-public.html
  3. Santos, Alejandro; Borges, Nuno. Vitamina D, a discussão em curso. Pensar Nutrição. Blog Científico.  Agosto, 2019. https://pensarnutricao.pt/vitamina-d-ponto-de-situacao/
  4. Cameron F. Gunville,1,* Peter M. Mourani,1 and Adit A. Ginde2,* The Role of Vitamin D in Prevention and Treatment of Infection. Inflamm Allergy Drug Targets. 2013 Jul 11; 12(4): 239–245. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3756814/
  5. Tangpricha V, Pearce EN, Chen TC, Holick MF. Vitamin D insufficiency among free‐living healthy young adults. Am J Med. 2002; 112: 659‐ 662. https://doi.org/10.1016/s0002‐9343(02)01091‐4
  6. Holick MF. Sunlight and vitamin D for bone health and prevention of autoimmune diseases, cancers, and cardiovascular disease. Am J Clin Nutr. 2004; 80: 1678S‐ 1688S.
  7. Cannell JJ1, Vieth R, Umhau JC, Holick MF, Grant WB, Madronich S, Garland CF, Giovannucci E. Epidemic influenza and vitamin D. Epidemiol Infect. 2006 Dec;134(6):1129-40. Epub 2006 Sep https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/16959053
  8. Cannell JJ1, Zasloff M, Garland CF, Scragg R, Giovannucci E. On the epidemiology of influenza. Virol J. 2008 Feb 25;5:29. doi: 10.1186/1743-422X-5-29. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/18298852
  9. Edlich RF, Mason SS, Dahlstrom JJ, Swainston E, Long WB 3rd, Gubler K. Pandemic preparedness for swine flu influenza in the United States. J Environ Pathol Toxicol Oncol. 2009;28(4):261-4 https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/20102323 
  10. Finklea JD1, Grossmann RE, Tangpricha V. Vitamin D and chronic lung disease: a review of molecular mechanisms and clinical studies. Adv Nutr. 2011 May;2(3):244-53. doi: 10.3945/an.111.000398. Epub 2011 Apr 30. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22332056
  11. Aregbesola A, Voutilainen S, Nurmi T, Virtanen JK, Ronkainen K, Tuomainen TP.
    Serum 25-hydroxyvitamin D3 and the risk of pneumonia in an ageing general population. Journal of Epidemiology and Community Health, 17 Apr 2013, 67(6):533-536 https://europepmc.org/article/med/23596250
  12. Rhaiza Aponte, MSHN and Cristina Palacios, PhD. Vitamin D for prevention of respiratory tract infections. Nutrition Program, Graduate School of Public Health, Medical Sciences Campus, University of Puerto Rico, San Juan, Puerto Rico. June 2017. https://www.who.int/elena/titles/commentary/vitamind_pneumonia_children/en/
  13. Nonnecke BJ, McGill JL, Ridpath JF, Sacco RE, Lippolis JD, Reinhardt TA. Acute phase response elicited by experimental bovine diarrhea virus (BVDV) infection is associated with decreased vitamin D and E status of vitamin‐replete preruminant calves. J Dairy Sci. 2014; 97: 5566‐ 5579. https://doi.org/10.3168/jds.2014‐8293
  14. Lei Zhang Yunhui Liu. Potential interventions for novel coronavirus in China: A systematic review. Journal of Medical Virology. First published:13 February 2020. https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/jmv.25707
  15. Martineau AR1,2, Jolliffe DA3, Hooper RL3, Greenberg L3, Aloia JF4, Bergman P5, Dubnov-Raz G6, Esposito S7, Ganmaa D8, Ginde AA9, Goodall EC10, Grant CC11, Griffiths CJ3,2,12, Janssens W13, Laaksi I14, Manaseki-Holland S15, Mauger D16, Murdoch DR17, Neale R18, Rees JR19, Simpson S Jr20, Stelmach I21, Kumar GT22, Urashima M23, Camargo CA Jr24. Vitamin D supplementation to prevent acute respiratory tract infections: systematic review and meta-analysis of individual participant data. BMJ. 2017 Feb 15;356:i6583. doi: 10.1136/bmj.i6583. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/28202713