“O meu filho não come!”. Esta é uma das frases que oiço com maior frequência no consultório. Na esperança do filho rapar o prato muitos pais pedem-me para prescrever vitaminas com o propósito de lhes abrir o apetite. Na verdade, nós crescemos com esta ideia de que as vitaminas abrem o apetite. Faz parte do imaginário e do senso comum, principalmente de adultos, como eu, que quando crianças eram bastante esquisitinhos.

Embora seja uma prática bastante enraizada na sociedade, rareiam estudos que tenham investigado esta associação entre vitaminas e apetite.

De facto, quando há carência de algumas vitaminas, nomeadamente B12, C e A, um dos sintomas destas hipovitaminoses poderá ser a falta de apetite. Mas o “contrário” não é necessariamente verdade. Ou seja, quando há falta de apetite não há necessariamente uma carência vitamínica e a suplementação não irá resolver o problema da falta de apetite. 1

Por exemplo, nos países em desenvolvimento, o consumo alimentar das crianças de tenra idade é frequentemente insuficiente para garantir um crescimento saudável. Em muitos destes casos, a redução do apetite é devido a vários factores, incluindo deficiências de micronutrientes, tal como supracitado. Assim, um estudo foi levado a cabo no Benin, para avaliar os efeitos da toma de suplementos multivitamínicos no apetite das crianças anémicas, raquíticas e com atraso de crescimento (exemplo extremo de desnutrição). 2

O estudo concluiu que a toma de suplementos multivitamínicos e multiminerais durante 6 semanas não conseguiu, por si só, melhorar o apetite e o crescimento de crianças pequenas.

Já quando o apetite foi reportado pelas mães – uma vez que as crianças do estudo tinham entre 17 a 32 meses – este aumentou independentemente de estarem a tomar o suplemento a sério ou o placebo, o que nos indica que este efeito não é real mas pode ter um cariz marcadamente comportamental e de certo modo tranquilizante para os pais preocupados com eventuais carências nutricionais dos filhos. 2

Seis semanas, que foi o tempo em que decorreu este estudo pode não ser suficiente para tirarmos ilações definitivas e outros estudos seriam necessários para comprovar se existe ou não relação entre a toma de suplementos vitamínicos e o aumento de apetite em crianças.

Em suma:

  1. Não existe nenhum mecanismo fisiológico que justifique um efeito positivo dos suplementos vitamínicos no aumento do apetite.
  2. Geralmente, os bebés e as crianças de tenra idade saudáveis podem atingir os níveis recomendados de ingestão de vitaminas apenas a partir de alimentos. 3,4
  3. Os profissionais de nutrição devem incentivar os prestadores de cuidados a utilizar alimentos em vez de suplementos como fonte primária de nutrientes nos regimes alimentares das crianças. 3
  4. Se o seu filho tem falta de apetite esporádica e seletiva (“picky eater”) mas tem um crescimento dentro do expectável existem várias formas de resolver este problema que não passa pela ingestão de vitaminas.
  5. Os suplementos vitamínicos e minerais podem ajudar os lactentes e as crianças com necessidades especiais de nutrientes ou uma ingestão marginal a atingir uma ingestão adequada, nomeadamente se a falta de apetite estiver associada a uma alimentação claramente deficitária e a outros sintomas como apatia, palidez, sonolência, pele seca, cabelos quebradiços, fissuras nos cantos da boca, etc. mas tal deve ser sempre avaliado por um profissional de saúde. 1
  6. Os profissionais de saúde devem fornecer recomendações de suplementos nutricionais para crianças geralmente saudáveis, com base numa avaliação das suas práticas alimentares. Ou seja, se um médico ou nutricionista aconselhou à toma de um suplemento vitamínico, deve seguir o seu conselho mas desconfie se tal profissional antes deste aconselhamento não fez nenhuma questão sobre a alimentação do seu filho. 4

Concluindo, a ideia de que as vitaminas abrem o apetite é daqueles mitos e recomendações que se vem perpetuando (mesmo na comunidade científica) que é importante esclarecer. A própria existência destes produtos sugere que as crianças deveriam tomá-los, mas é necessária mais investigação sobre os seus potenciais efeitos adversos a curto e longo prazo.5 A variação substancial das dosagens entre produtos também levanta questões sobre a fortificação (talvez desnecessária) das nossas crianças, bem como sobre as expectativas que os pais conhecem – ou estão mesmo conscientes – dos níveis de nutrientes adequados para os seus filhos. 5 Quando em excesso e sem se resolverem problemas alimentares e comportamentais de base, poderão fazer mais mal do que bem.

 Referências bibliográficas

  1. Carvalho P. Os Mitos que comemos. As vitaminas abrem o apetite. Matéria-Prima Edições. 2016
  2. Dossa RA.et al. Effects of multivitamin-multimineral supplementation on appetite of stunted young Beninese children.  2002 Oct;39(2):111-7.
  3. Briefel R. et al. Feeding Infants and Toddlers Study: Do Vitamin and Mineral Supplements Contribute to Nutrient Adequacy or Excess Among US Infants and Toddlers? J Am Diet Assoc. 2006 Jan;106(1 Suppl 1):S52-65.
  4. Gilmore J. et al. Longitudinal Patterns of Vitamin and Mineral Supplement Use in Young White Children. J Am Diet Assoc. 2005 May;105(5):763-72; quiz 773-4.
  5. Elliott C. Assessing Vitamins, Minerals and Supplements Marketed to Children in Canada. Int J Environ Res Public Health. 2019 Nov 6;16(22):4326.

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