É assim tão importante substituir açúcar refinado por açúcar não refinado?

Por vezes oiço dizer: o meu filho não come açúcar! Uns minutos de conversa depois, percebo que a criança não come açúcar de cana refinado mas consome outras fontes de açúcar simples, mesmo que não refinado.

Muitas pessoas acreditam que “açúcar não refinado”, como por exemplo mel, açúcar de coco, xarope de arroz, xarope de tâmaras, “maple syrup” ou agave são formas “mais naturais de açúcar” e por isso “são mais saudáveis” e “não têm nada a ver” com o açúcar de cana. Mas, infelizmente, muito mais é o que os une do que aquilo que os separa.

Também o marketing alimentar se faz valer dessa crença e mito generalizado para colocar frequentemente na embalagem de produto: “sem açúcar refinado”, levando o consumidor a crer que se trata de uma oferta inequivocamente muito melhor e algo que podemos comer “sem culpa”.

Quais as diferenças entre os vários tipos de açúcar?

Efetivamente o açúcar de cana refinado é um alimento muito pouco interessante, fornecedor de calorias vazias e, quando em excesso, potencia o aparecimento de cáries, diabetes, obesidade, entre outras patologias.

Os açúcares não refinados é certo que acabam por ser ligeiramente mais interessantes, já que sofrem um menor processamento, por vezes químico e alguns apresentam um maior teor de vitaminas e minerais. Contudo, a OMS recomenda uma ingestão muito limitada de açúcar adicionado por dia. Uma criança nunca deve exceder os 25g. Assim, qualquer que seja o açúcar convém que nunca seja consumido como possível fonte de vitaminas e minerais porque para tal acontecer teria que o consumir em doses industriais.

Senão vejamos:

Vamos fazer uma comparação utilizando o cálcio, para a qual a Dose Diária Recomendada é em média 1000mg/dia:

– 25g de açúcar branco = 0,25 mg de cálcio

– 25g de mel = 1,5 mg de cálcio

(crianças de 1 a 3 anos, 700 mg de cálcio/dia; crianças dos 4 a 8 anos, 1000 mg e crianças dos 9 aos 18 anos, 1 300 mg) 

Outro argumento muito usado diz respeito ao índice glicémico, que quando em comparação com o açúcar de cana, alguns dos exemplos citados possuem um índice menor.

Em todo o caso, estar a discutir o impacto glicémico de um alimento que possui mais de 90% de açúcar na sua composição é algo que entra no domínio do risível, uma vez que quem está preocupado com esse tópico tem uma boa solução que passa por ingerir muito pouco açúcar seja ele qual for.

Se utilizar opções como por exemplo açúcar de coco ou xarope de agave, escolha-os sobretudo porque prefere o sabor e a textura, e não porque são um “alimento saudável”.

Se o consumo for inferior a 25g por dia, o tipo de açúcar adicionado não fará grande diferença do ponto de vista nutricional. Mais vale que o seu filho coma bem, consuma fruta e legumes, verdadeiros fornecedores de vitaminas e minerais e desfrute ocasionalmente dos açúcares adicionados com parcimónia, independentemente de serem de cana ou não, mas sempre como parte de uma dieta equilibrada. 

Aqui nas Papinhas da Xica acabo por usar mel, em muitas receitas. Primeiro porque este possui algumas características antioxidantes, anti-inflamatórias e antibacterianas muito interessantes. Porém, é quase sempre cozinhado, fazendo com que perca muitas destas características. Segundo porque gosto do sabor e por último, porque sei que se pusesse açúcar muitas de vocês iriam ter um colapso, desnecessário, como se já vos pude aqui explicar… 

Resumindo:

  1. O bebé não deve consumir nenhum tipo de açúcar adicionado no seu primeiro ano de vida. Idealmente, tal deveria ser prolongado até aos 2 anos de idade.
  2. O mel é desaconselhado até aos dois anos de idade.
  3. Relativamente ao açúcar adicionado, mais importante do que a qualidade, se é ou não refinado, o mais importante é ter atenção à quantidade e frequência com que o faz e oferece ao seu filho, já que muda o nome, mas o açúcar é (quase) o mesmo.

Referências

Carvalho, P. Os 4 alimentos mais sobrevalorizados deste verão. Jornal Público

 

 

 

 

 

2 Comments

  • Ângela diz:

    Obrigada pela explicação! Realmente cansa a obsessão com o “não refinado”..
    Em termos de processamento cerebral e adaptação ao sabores, conta o sabor doce e não a sua origem. O importante será mesmo nivelar para baixo o sabor doce nos alimentos, para que a criança não procure tanto alimentos muito doces (que no geral adoramos).
    Habitualmente usamos aquela fruta demasiado madura da fruteira, que dá sabor suficente a panquecas etc e evitamos desperdício

  • Sandra Santos diz:

    Olá Ângela! Muito obrigada pelo seu feedback. Beijinhos

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