No outro dia, numa ronda de perguntas, através dos stories do instagram, alguém questionou se devia oferecer papa pelo biberão, ou seja acrescentar farinha/cereal ao leite do bebé.

Respondi imperativamente que tal nunca devia ser feito e imediatamente recebi dezenas de mensagens a perguntarem o porquê.

Quando a Francisca tinha cerca de 4 meses e naturalmente acordava várias vezes à noite, sugeriram-me fazer isso, o que pelas razões que vos direi mais à frente obviamente ignorei.

Honestamente, pensei que era um mau hábito que havia caído em desuso mas, após tanta interação naquela rede social achei pertinente e urgente lançar este artigo.

Certamente, assim como eu, muitos de vós terão ouvido pais, sogros, amigos ou lido na internet:

“Estás tão cansado! Experimenta colocar papa no biberão da tua filha – vais ver que dorme a noite toda”.

“O seu filho está tão magrinho. Se calhar não está a comer o suficiente. Junte algumas colheres de papa no biberão – é o melhor truque”.

“A alimentação à colher não é nada prática. Dar papa no biberão é muito mais rápido, conveniente, dormem mais e choram menos – queres melhor?”

A Academia Americana de Pediatria (AAP) afirma que esta crença e prática de dar papa aos bebés no biberão pode fazer mais mal do que bem. “Pensa-se que o sistema digestivo de um bebé não está bem preparado para processar cereais até cerca dos 6 meses de idade. Deste modo, quando o bebé tiver idade suficiente para digerir cereais, também estará pronto para comê-los à colher”, diz a AAP.

Posto isto, aqui ficam as principais pelas quais deve evitar servir cereais no biberão:

Excesso de calorias e maior risco de obesidade – Quando o bebé bebe leite materno ou fórmula, ele sabe instintivamente quanto ingerir. No entanto, quando se oferecem cereais juntamente com leite no biberão, o que muitas vezes acontece é que o bebé ingire o volume habitual mas com muito mais calorias correspondentes ao cereal/papa adicionado. Neste caso, pode ocorrer uma “sobredosagem” de calorias nessa refeição. Este consumo excessivo, pode levar à obesidade ou a uma relação pouco saudável com os alimentos.

Risco de asfixia – Uma papa é sempre mais espessa que o leite materno e a fórmula, por essa razão quendo é dada pelo biberão pode levar a que os bebés mais pequenos, sem os mecanismos de deglutição adequados, possam ter maior reflexo de gag ou maior risco de sufocar ou ainda aspirar papa para os seus pulmões.

Quando a alimentação através do biberão se tornou popular, a papa era frequentemente dada no biberão. Quais foram os resultados? A maioria das crianças parecia prosperar em termos ponderais. Um pequeno número de crianças, porém, não tolerou a adição, porque as suas ações de sucção e deglutição ainda não estavam totalmente coordenadas. Acabaram por inalar pequenas quantidades do cereal, o que originou problemas pulmonares.

Não estimula a mastigação – Entre os 5 e os 8 meses ocorre uma transição progressiva das funções oromotoras com a passagem da sucção para a mastigação, deste modo ao longo desta janela de oportunidade, a textura dos alimentos deve ser progressivamente menos homogénea. Se tal não acontecer poderá comprometer o desenvolvimento da musculatura e motricidade orofacial e as funções a elas relacionadas, como a respiração, sucção, mastigação, deglutição e a fala, com impacto negativo também nos hábitos alimentares futuros. Ora aos oferecermos papa através do biberão estamos a dar continuidade ao movimento de sucção e não de mastigação, comprometendo também a própria digestão.

Depois de várias noites sem dormir pode ser tentador fazer um buraco maior na tetina do biberão e adicionar farinha ao leite. Contudo, para além dos estudos não mostrarem uma associação entre esta prática e o número de horas de sono do bebé, tal pode ter consequências graves para o bebé, não compensando uma boa noite de sono. 🙂

Recomendo ainda a leitura dos artigos:

BEBÉ NÃO DORME: DAR FÓRMULA OU ALIMENTOS SÓLIDOS VAI AJUDAR?

A AMAMENTAÇÃO E O SONO DO BEBÉ

Bibliografia:

  1. Birch LL, Fisher JO, The causes and health consequences of obesity in children and adolescents: development of eating behaviors among children and adolescents. Pediatrics 1998 Mar; 101(3)
  2.  Macknin ML, Medendorp SV, Maier MC, Infant sleep and bedtime cereal. Am J Dis Child 1989 Sep; 143(9):1066-8
  3.  Hall RT, Infant feeding. Pediatr Rev – 2000 Jun; 21(6): 191-9.
  4. American Academy of Pediatrics (AAP), Nationwide Children’s Hospital. February 22
  5.  Sheppard JJ, Mysak ED. Ontogeny of infantile oral reflexes and emerging chewing. Child Develop 1984; 55: 831-43.
  6. Lllingworth RS and Lister J. The critical or sensitive period, with special reference to certain feeding problems in infants and children. J. Pediatr 1964; 65: 839-48.
  7. Northstone K, Emmett P, Nethersole F. The effect of age of introduction to lumpy solids on foods eaten and reported feeding

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