Náuseas e enjoos na gravidez: quem nunca? Para mim foi sem dúvida o pior dos transtornos que tive na gravidez da Francisca, o que vale é que depois do primeiro trimestre, no meu caso melhoraram consideravelmente.

Na realidade, o mesmo acontece com muitas mulheres, já que os sintomas normalmente começam 2-4 semanas após a fertilização, atingem o seu pico entre 9 e 16 semanas de gestação e geralmente passam após as 22 semanas de gestação.

Sono, enjoos e vómitos, cocktail perfeito para em pleno mês de Janeiro me ter apetecido recorrer à hibernação: “Se isto durar 9 meses, juro que não aguento!”. Honestamente, sentia-me mais doente do que propriamente grávida e muito embora, os enjoos e náuseas tendem a ser tratados como “normais” nesta fase do ciclo de vida, a verdade é que podem reduzir consideravelmente a qualidade de vida da mulher grávida.

Provavelmente não estou sozinha, uma vez que náuseas e vómitos na gravidez são um transtorno muito comum relatado por 70 – 80% de todas as mulheres grávidas.

Apesar de não ser conhecido o mecanismo exato que desencadeia os enjoos, pensa-se que a predisposição genética, alterações hormonais características desta condição, mecanismos mediados pela placenta, dismotilidade gastrointestinal, infeção por Helicobacter pylori, entre outros, poderão ser os responsáveis pela sintomatologia.

As boas notícias: embora causem um tremendo mal-estar não constituem na maior parte das vezes qualquer risco em termos nutricionais para o bebé.

Exceto na sua forma mais grave, a hiperémese gravítica, que se caracteriza por vómitos violentos, em que a mamã pode ter que ser internada para prevenção da desidratação, desnutrição e possível perda de peso excessiva.

Assim, vou partilhar convosco, na primeira pessoa, alguns truques e dicas para aliviar os enjoos nesta fase do ciclo de vida:

  1. Coma várias vezes ao dia mas pequenas quantidades de cada vez. Os enjoos na gravidez tendem a agravar-se quando se fica muitas horas sem comer, por isso se começar a sentir-se enjoada faça um pequeno snack, nem que seja só a 1 a 2 bolachas.
  2. Evite pratos muito pesados, “gordurosos” ou condimentados, uma vez que uma vez que os alimentos gordos podem atrasar ainda mais o esvaziamento gástrico e os alimentos picantes podem provocar náuseas
  3. Se os enjoos forem sobretudo matinais, coloque na mesa de cabeceira algumas bolachas de água e sal, tostas secas, grissini, cereais ao natural, torradas de pão de mistura e coma uma ou duas, ainda na cama, ao acordar. Deixe passar alguns minutos e levante-se lentamente. Muitas vezes isso ajuda a reduzir a intensidade do enjoo e permite desfrutar do pequeno-almoço com maior satisfação. Nota: evite as bolachas e os cereais açucarados, bem como os bolos.
  4. Embora haja evidência que recomende refeições ricas em proteínas e baixas em hidratos de carbono, bem como a ingestão de alimentos mais líquidos do que sólidos pode na minha experiência pessoal e clínica, costumo ter melhores resultados com alimentos de consistência mais pastosa. Por exemplo, ao trocar o leite ou bebida vegetal com pão num pequeno-almoço ou lanche por uma papa de aveia tem por vezes um resultado mais positivo. Já que, líquidos em excesso, juntamente com a comida, podem favorecer os vómitos e aumentar a sensação de mal-estar.
  5. Normalmente os alimentos mais quentes também podem desencadear náuseas, se for o caso, pode substituí-los por alimentos mais frescos, tais como iogurtes, gelatina, gelados caseiros ou fruta fresca, granizada ou em puré. As maçãs cozidas ou assadas, puré de maçã ou pera em calda são boas opções de snack ou sobremesa.
  6. Beba pequenas quantidades de água fora das refeições e caso tenha dificuldade em aguentar líquidos no estômago, chupe cubos de gelo para atenuar o mal-estar e prevenir a desidratação. Pode optar ainda por fazer gelo com umas gotas de sumo de limão ou laranja para obter um sabor mais agradável. Já o final das refeições principais, beba umas infusões de ervas, tais como camomila, erva-príncipe, carioca de limão ou um chá de gengibre e limão.
  7. Por falar em gengibre, O American College of Obstetrics and Gynecology (ACOG, 2004) recomenda-o como adjuvante de uma intervenção não-farmacológica. Recentemente, uma revisão sistemática e uma meta-análise de ensaios randomizados constataram que o gengibre melhorou as náuseas em comparação com o placebo. Seja numa infusão, adicionado a uma sopa, sumos ou bolachas, sob a forma de rebuçado ou suplementos, vale a pena a aposta, uma vez que é considerado seguro e pode efetivamente ser eficaz no tratamento da náusea e hipomotilidade gástrica.
  8. Avalie com o profissional de saúde que a assiste a necessidade de fazer suplementação. De acordo com a American Pregnancy Association, a toma de um suplemento nutricional de vitamina B6 pode ajudar a diminuir os enjoos e os vómitos durante a gravidez. Existe ainda alguma evidência que suporta a suplementação em vitamina B1.

 

Referências bibliográficas

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2 Comments

  • Joana Soares diz:

    Muito útil!
    Ainda estamos a recuperar do primeiro (Dinis 13 meses) mas, se houver um próximo e a gravidez for idêntica, vai ser uma grande ajuda já que os enjoos duraram até ao final.
    Continuação de um excelente trabalho e beijinhos para as duas.

  • Sandra Santos diz:

    Olá Joana!
    Tenho uma profunda empatia por quem passa a gravidez inteira com enjoos. Só tive durante um trimestre e mesmo assim foi muito desconfortável. Mas acredito que o Dinis tenha feito valer a pena! Venha o próximo, ahahaha
    Beijinhos!

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