Posso dar de mamar depois da refeição?

Finalmente chegou a hora de dar início à alimentação complementar. Todos querem participar e ajudar mas a verdade é que por vezes os bitaites de sogras, amigas ou até profissionais de saúde fazem mais mal do que bem.

“Se deres mama antes da refeição depois ele não come.” “Ah, não dês mama a seguir à sopa porque senão não absorve bem os nutrientes”.

Instala-se o caos. A mãe fica confusa. O bebé fica frustrado por pedir mama e a mãe não dar. Cospe parte da comida e assim, uma experiência que deveria ser tranquila, divertida e prazerosa transforma-se num pesadelo.

Afinal, posso ou não dar de mamar depois da refeição?

Bom, em primeiro lugar é necessário perceberem o seguinte:

  • O leite materno é alimento principal no primeiro ano de vida do bebé.
  • No início da alimentação complementar o bebé pode comer apenas uma a duas colheres de sopa/papa/fruta e isso é NORMAL.
  • Se o bebé comer só uma colher naturalmente não ficará satisfeito. Vocês gostavam de ficar cheias de fome e terem que esperar umas horas até à próxima refeição?
  • “Ah, mas tem que aprender…” Aprender a comer é um processo e pode ser demorado. Por isso é fundamental respeitarem o tempo do vosso bebé.
  • A livre demanda deve prevalecer mesmo depois da introdução dos novos alimentos, até para estimular e garantir uma boa produção de leite.

Para além do exposto, muitas vezes, o bebé, depois de comer, mesmo quando já come relativamente bem, procura a mama para aquele conforto e aconchego antes de tirar um valente cochilo. Isso acontecia imensas vezes com a Francisca e com muito bebés que atendo em consulta, que gostam da maminha para adormecerem.

Então resta-nos apenas uma questão: dar leite materno depois da refeição vai comprometer a absorção de alguns nutrientes?

Bom, nós sabemos que existem algumas interações nutriente-nutriente. Por exemplo: enquanto o cálcio inibe a absorção do ferro, a vitamina C potencia-a.

Sendo o ferro um mineral crítico, cuja deficiência continua a observar-se na mulher grávida bem como no lactente, quer na Europa, quer nos Estados Unidos e, tendo em consideração que o cálcio presente no leite e derivados diminui a absorção do ferro presente por exemplo em legumes, cereais e leguminosas, devemos evitar dar a mama a seguir à refeição?

Tanto o leite materno, como o leite de vaca têm muito pouco ferro (0,2-o,5 mg/L). Contudo, uma vez que o leite materno é concebido para humanos por humanos, pode concluir-se que, a quantidade que existe no leite materno, mesmo sendo baixa será suficiente e ótima para o desenvolvimento dos bebés. Para além disso, acreditamos que, ao contrário do leite de vaca, o leite materno tem “uma forma especial” de ferro frequentemente afirmada como sendo “altamente biodisponível”. De facto, o ferro no leite materno está ligado a uma proteína, a lactoferrina, que aumenta a sua absorção. Para apoiar este conceito, um estudo Sueco mostrou a presença de um recetor no intestino infantil especificamente para a ligação ferro-lactoferrina

Ainda, enquanto o leite de vaca possui baixos níveis de vitamina C, fator que estimula a absorção de ferro, e altos níveis de cálcio e fósforo, fatores que inibem a absorção de ferro. O leite materno contém uma média de 40±10 mg/l de vitamina C, um valor interessante desta vitamina e também tem a vantagem de não necessitar de manipulação ou aquecimento que poderiam levar à perda deste nutriente.

Concluindo, relativamente ao mito que dar mama a seguir à refeição é prejudicial para o bebé, esqueçam!

Já os bebés que bebem fórmula, recomendo que esperem de 1 a 2 horas após a refeição principal, isto é, almoço e jantar, que são as refeições que contêm mais ferro. Isto porque a fórmula é feita a partir do leite de vaca e pode apresentar as condicionantes que mencionei. Porém, se o bebé estiver no início da alimentação complementar e ainda comer muito pouco, também pode dar a fórmula a seguir, porque não vai deixar a criança com fome.

Então mas e se eu der de mamar antes da refeição, o bebé não vai comer menos? Pode ser que sim ou pode ser que não… Não sabemos! Porém, pode estar certa que se ele comer menos do que precisa nessa refeição, vai compensar esse défice, seja mamando mais ou comendo mais na refeição seguinte. O facto é que se o bebé quiser mamar na hora da refeição e você insistir para que ele coma a comida e negue a mama, ele vai chorar e é muito provável que recuse totalmente a refeição e se torne um martírio.

Por outro lado, se o bebé mamar, nem que seja só um bocadinho, ele pode depois estar mais predisposto a aceitar outros alimentos. Lembre-se que cada dia é diferente, assim como cada bebé.

Não há verdades absolutas. O importante é observar o seu bebé e respeitar os seus sinais de fome, saciedade, seu estado de sono, humor ou agitação. Todos estes fatores interferem enormemente na sua alimentação e na sua vontade em experimentar novos alimentos.

Resumindo: Pode dar de mamar antes, durante e depois da refeição que a nutrição do seu bebé vai muito bem e recomenda-se!

 

Referências bibliográficas:

  1. L A Persson 1, M Lundström, B Lönnerdal, O Hernell. Are weaning foods causing impaired iron and zinc status in 1-year-old Swedish infants? A cohort study.  Acta Paediatr. 1998 Jun;87(6):618-22.
  2. Oliveira Maria A. A., Osório Mônica M. Cow’s milk consumption and iron deficiency anemia in children. J. Pediatr. (Rio J.) vol.81 no.5 Porto Alegre Sept./Oct. 2005
  3. Cai C., Harding S.V., Friel J.K. Breast milk iron concentrations may be lower than previously reported: implications for exclusively breastfed infants. Matern Pediatr. Nutr. 2015;2:2. doi: 10.4172/2472-1182.1000104.
  4. Saarinen U.M., Siimes M.A., Dallman P.R. Iron absorption in infants: high bioavailability of breast milk iron as indicated by the extrinsic tag method of iron absorption and by the concentration of serum ferritin. J. Pediatr. 1977;91:36–39. doi: 10.1016/S0022-3476(77)80439-3.
  5. Dewey K.G., Chaparro C.M. Session 4: Mineral metabolism and body composition iron status of breast-fed infants. Proc. Nutr. Soc. 2007;66:412–422. doi: 10.1017/S002966510700568X.
  6. Suzuki Y.A., Shin K., Lönnerdal B. Molecular cloning and functional expression of a human intestinal lactoferrin receptor. Biochemistry. 2001;40:15771–15779. doi: 10.1021/bi0155899.
  7. Persson LA, Lundstrom M, Lonnerdal B, Hernell O (1998) Are weaning foods causing impaired iron and zinc status in 1-year-old Swedish infants? A cohort study. Acta Paediatr 87(6): 618-622.
  8. Lind T, Persson L, Lonnerdal B, Stenlund H, Hernell O (2004) Effects of weaning cereals with different phytate content on growth, development and morbidity: a randomized intervention trial in infants from 6 to 12 months of age. Acta Paediatr 3(12): 1575-1582.
  9. Lind T, Lonnerdal B, Persson LA, Stenlund H, Tennefors C, et al. (2003) Effects of weaning cereals with different phytate contents on hemoglobin, iron stores, and serum zinc: a randomized intervention in infants from 6 to 12 mo of age. Am J Clin Nutr 78(1): 168-175.
  10. World Health Organization. Complementary feeding of young children in developing countries. A review of current scientific knowledge. Geneva: WHO; 1998.
  11. Dallman PR, Siimes MA, Stekel A. Iron deficiency in infancy and childhood. Am J Clin Nutr. 1980;33:86-118.

Deixe um comentário