Como interpretar as curvas de crescimento?

Já toda a gente ouviu falar das curvas de crescimento, presentes no boletim de saúde dos nossos filhos. Hoje, vamos aprender a interpretá-las corretamente, para que não continuem a dar aso a mal-entendidos.

“O meu é maior que o teu.” E lá vamos nós às comparações com os filhos da prima, da amiga… Mamãs e papás, todos sabemos que os vossos filhotes põem o Ronaldo a piar fininho. Senão vejamos: com 6 meses estão no percentil 90, aos 4 já comem papa e desde os dois que são maiores que a vizinha do 5ºesq. que até já era espigadota. Atenção: são maiores não! São os maiores! Ouviste Cristiano?

Quem não gosta de apertar aquelas regueifas que espreitam pela fralda e dar beijos repenicados nas bochechas mais fofas do Mundo?

Mas um bebé gordinho e grande não é necessariamente mais saudável ou precoce que um bebé mais pequenino; em muitos casos até se verifica o contrário.

O peso ou a altura isoladamente pouco nos dizem sobre o desenvolvimento de um bebé. Muito menos se o bebé do amigo já veste 3 tamanhos acima do que era suposto…

Assim, hoje, vamos falar sobre como interpretar corretamente as curvas de crescimento, consideradas pela Organização Mundial de Saúde e Direção-Geral da Saúde instrumentos fundamentais para monitorizar o estado de nutrição e o crescimento de crianças e adolescentes.

Como são feitas as curvas de crescimento?

No Boletim de Saúde Infantil e Juvenil do seu filho, vai encontrar quatro curvas de crescimento:

  1. Peso
  2. Estatura
  3. Perímetro cefálico
  4. Índice de Massa Corporal (que relaciona a altura com o peso)

Cada uma resulta da união de pontos que correspondem aos valores médios de medições rigorosas de milhares de crianças, em várias idades, no âmbito de um estudo multicêntrico, (WHO Multi center Growth Reference Study – MGRS) cuidadosamente elaborado e realizado entre 1997 e 2003 em diferentes continentes e que incluiu amostras altamente seletivas de lactentes e crianças oriundas das cidades de Davis (Estados Unidos), Muscat (Oman), Oslo (Noruega), Pelotas (Brasil), Accra (Gana) e da região sul de Deli (Índia).

Para a sistematização da informação e evitar enviesamento dos dados foram considerados os seguintes parâmetros: as crianças deveriam ser fruto de gravidezes sem problemas, não terem doenças de base, terem sido amamentadas o máximo de tempo e terem tido uma diversificação alimentar de acordo com as melhores práticas.

Assim, independentemente da localização geográfica, considera-se que, nas mesmas condições acima referidas, as curvas refletem o crescimento ideal com o qual cada criança deve ser comparada ao longo do seu crescimento.

Porquê que as curvas de crescimento não são como as notas da escola?

Ao olharmos para uma curva de crescimento de uma criança, o que realmente pretendemos, é mapear o crescimento ideal para aquela criança em particular. Isto não é como as notas na escola. Ou seja, quanto mais alto melhor. Quando o seu filho está no percentil 10, não é realmente melhor ou pior do que estar no percentil 50 ou 90. O que mais nos interessa é a tendência com que o seu bebé ou criança ganha peso, altura, ou circunferência da cabeça.

Assim, se o pediatra indicar que o seu filho está na curva 25 da altura, por exemplo, tal significa que, em 100 crianças saudáveis com a idade e sexo do seu filho, 75 serão mais altas e 24 serão mais baixas do que ele.

Mais importante do que a comparação de uma criança com a média estabelecida pela curva (P50), é a proporção entre os valores e a sua evolução, sobretudo se o peso e a altura, estão adequados entre si e se são equilibrados ao longo do tempo, embora sejam normais acelerações e desacelerações. Nenhum destes indicadores deve ser visto isoladamente.

Também por essa razão, após os 2 anos de idade, para além do peso e altura, também olhamos para o índice de massa corporal, onde tentamos captar a proporcionalidade da criança. Estarão em risco de excesso de peso ou serão demasiado magras?

Tudo, desde a genética, ao ambiente, à nutrição, à atividade, aos problemas de saúde, influenciam realmente a forma como o seu filho cresce. A razão pela qual avaliamos as curvas é para falar sobre ameaças à saúde do seu bebé ou criança e formas de poder aproveitar grandes oportunidades para fazer mudanças.

Porquê que não se deve concentrar no número?

Os pais vêm frequentemente às minhas consultas e dizem: “Em que percentil está ela?” Ela pode estar no percentil 10; isso pode ser fenomenal com base no local onde esteve anteriormente, ou pode ser preocupante, no caso de não ter aumentado de todo de peso ou ter perdido. Contudo, mesmo nestes casos deve ser avaliado se houve por exemplo alguma razão, como uma simples virose, ou outro quadro patológico que tivesse motivado essa situação. O mais normal é ficarem concentrados no número e criarem stress nas mães ou culparem o leite materno: ah, o leite é fraco… Por isso, digo e repito: não se concentre no número!

Outra coisa que me choca muito é quando dizem: “tivemos que dar fórmula porque o pediatra disse que ela não estava a evoluir de peso. Estava sempre no percentil 15!”

E qual é o problema???? Se estava sempre no percentil 15 é porque essa é a curva expectável para essa criança, que cresce bem, de acordo com o seu próprio ritmo e potencial genético.
O percentil 50 não é a meta, não é o certo. Não há certo aqui!

Pais e profissionais de saúde ponham uma coisa na cabeça: NÃO É SUPOSTO ANDAR A TREPAR PERCENTIS! O acúmulo excessivo de gordura, num curto espaço de tempo não é necessariamente o melhor a criança, antes pelo contrário. Na maior parte dos casos só causa ansiedade, expectativas irrealistas, compromete a amamentação e pode aumentar o risco de obesidade no futuro.

As curvas de crescimento, quando bem interpretadas são uma ótima orientação quer para acalmar os pais mais ansiosos cujos bebés não crescem de acordo com as suas expectativas, quer para apaziguar os ânimos das mamãs Aveiro que sonham passar a reforma a tricotar botinhas de ouro! A elas e a muitos profissionais de saúde resta lembrar que ser o maior não significa ser o melhor.

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