Somos campeões!!

Os teus pais, sensatos, decidiram ir ver o jogo à Alameda e o teu pai não te quis deixar para trás; imaginávamos um cenário idílico no jardim, de carrinho de bebé estacionado e com boa visibilidade para o ecrã. Claro! E o euromilhões, não? Encontrámos uma grande confusão e vimos a primeira parte do mítico jogo em meio metro quadrado, para os três e o traste do carrinho. Tu não te deixaste intimidar nem pelo espaço, nem pelos franceses, de tão entretida que estavas em colocar a nossa roupa em estado de sítio, enquanto comias o teu abacate. Resmungar, resmungar, só mesmo quando os miúdos do lado comiam um pastel de nata e fingiram que não estavas lá… Não se faz! Consolaste com o teu sorriso lindo, as lágrimas que corriam pela cara da rapariga mesmo ao nosso lado, quando o Ronaldo chorava também. E ao intervalo lá fomos a voar para casa não fosse Portugal marcar e instalar-se a confusão dos festejos. Não que eu estivesse à espera, estava convencida da derrota e chorei durante todo o caminho de casa, sou uma pessimista, já me conheces… O teu pai, só dizia: “Estás a chorar porquê, ainda se estivéssemos a perder… Mas vamos ganhar!” Porém o teu pai não é de fiar, é um optimista nato. Que raio de combinação improvável nós os dois, já viste?… Mas resulta e tu és a prova viva disso! Adiante. Já em casa os nervos apertaram, enquanto dormias até ao derradeiro momento: Goooooooooolo! Agora só faltava o apito final. Já está. Campeões da Europa. Os pequeninos fizeram-se grandes, quando poucos acreditavam. Fomos recebê-los a Belém, decidimos à última da hora e chegámos tarde e a más horas, como de resto já vem sendo hábito, desde que chegaste. Ficámos muito lá atrás, entre a multidão e foi uma risota ver a tua surpresa ao ver pés balançarem entre os galhos das árvores. Às tantas uma escolta policial deu sinal na marginal, bem do outro lado do jardim – “Eh pá: ali víamos mesmo ao pé, bora?” – e se um diz mata o outro diz esfola: “Cooooooorrrre”. Lá foi o teu pai contigo ao colo e eu com o carrinho (o mesmo), mais lá para trás aos tropeções. E num segundo estavam mesmo ali os nossos heróis. Foi só um jogo. Tantas coisas realmente importantes para darmos importância e foi só um jogo… Foi só um jogo que encerra em si a identidade de um povo, entregue às derrotas, à descrença, perseguindo a maldição de um triste fado. Foi só um jogo que provou que é possível, que o nosso dia há-de chegar. Foi o nosso dia! E que dia este, que trouxe às ruas o peito cheio, para gritarmos as viscerais emoções há muito guardadas: Somos campeões e que felicidade dizê-lo bem alto, nem que seja com linguagem menos própria, vale tudo e, como diz o poema: “Seja o eco de uma afronta o sinal de ressurgir” e que tu ainda pequenina mas já campeã, no futuro possas sempre dizer com orgulho: Sim, sou portuguesa e sabe tão bem..

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