A minha breve passagem por São Tomé e Princípe não foi em vão. Não sei se plantei ou deixei alguma sementinha ou se mudei alguma pedra do seu acomodado lugar, neste nosso sempre surpreendente Mundo de assimetrias mas sei que, na hora de introduzir novos alimentos na vida da Xica, o pragmatismo da aprendizagem de viver seis meses sem electricidade falou mais alto: é mesmo necessária a parafernália de bimbys e companhia, robots e máquinas de fazer papinha para bebés?
A mastigação é uma função muito importante para o desenvolvimento da criança, devendo ser estimulada desde cedo, de modo a não comprometer hábitos dietéticos em idades posteriores. 1,2
Aliás, as papas e purés, quando prolongados para além do período necessário, sem que sejam oferecidas ao bebé outras texturas que lhes permitam trincar e roer, podem atrasar ou até mesmo comprometer o desenvolvimento da mandíbula e dos maxilares, o alargamento do pavilhão oral e a adequada implantação dos dentes.
Posto isto, logo no início da introdução de novos alimentos, para além do leite, na vida da Xica, pensei: Vamos lá esmagar a cenoura cozida e a grupeta com o velho garfinho e nada de recorrer a aparelhos que trituram tudo o que lhes passa pelas “mãos”! O timming não podia ser melhor, com ela toda entupida, a levar com descargas de soro fisiológico a toda a hora… Bem, foi um berreiro cá em casa – Isto vai ser bonito – pensei injustamente, perante a ranhoca a sair e provavelmente sem qualquer sentido do paladar no momento.
No segundo dia melhorou, o terceiro piorou exponencialmente, depois veio a abóbora e foi o drama, o horror e ao quinto dia, a história mudou, ainda com a abóbora mas já sem a ranhoca, o levar a colher à boca foi o “ver se te avias”. Desde então não faz cara feia a nada.
No entanto, nesta sequência de dias, claro que tive que ouvir: “ai que a menina engasga-se” – primeiro prémio de citação mais ouvida, “pois, ela não come, ela é muito pequenina tem que ser tudo muito bem passadinho”…
Não desconfiavam é que a menina pequenina me tivesse roubado uma banana da mão e a tivesse devorado, abonhacando-a como gente grande. Se se engasgou? Sim, uma vez ou duas mas resolveu e continua a fazê-lo, tendo desde sempre recebido pedaços ou fatias de banana, abacate, manga, bróculos, couve-flor, cenoura cozida e por aí.
Quanto aos robots? Ficam na despensa! É uma opção, como sou meia loira, troco-me toda com tanto botão, temporizador e quando dou por mim, tenho um fogo de artifício a jorrar pela máquina fora e o inferno para limpar.
Já o garfinho continua um bom aliado mas confesso aproveitar a fantástica invenção da electricidade, para usar também a varinha mágica. A razão, não é o medo que ela se engasgue mas porque realmente o sabor parece mudar com a textura: é que um puré de legumes não é o mesmo com o garfo, não fica tão cremoso e um puré é um puré!
Mesmo uma bebé que topa-a-tudo também merece algo gourmet!

  1. Illingworth RS and Lister J. The critical or sensitive period, with special reference to certain feeding problems in infants and children. J. Pediatr 1964; 65: 839-48.
  2. Northstone K, Emmett P, Nethersole F. The effect of age of introduction to lumpy solids on foods eaten and reported feeding difficulties at 6 and 15 months. J Hum Nutr Diet 2001; 14: 43–54.

2 Comments

  • Márcia Valério diz:

    Não podia deixar de estar mais de acordo, enquanto as amigas, as primas e as tias cozinham nas suas ultra modernas máquinas de fazer comidinha para os seus bebés e restante família, eu recorro às panelas no fogão, ao poderoso garfo e à preciosa ajuda da varinha mágica. Todos olham para mim cor um ar algo retro ou até de avozinha mas não me importa, em qualquer lugar do mundo faço a melhor sopinha para a minha becas! A liberdade lá de casa é mesmo a descoberta, aplicando-se a todos.

  • Sandra Santos diz:

    Olá Márcia! Muito obrigada pelo seu comentário e felicidade para a sua becas 🙂

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