“São panos coloridos carregados, trazem mochilas de dias, meses, de um ou dois anos, com choros sufocados, esmagados nas costas da mãe África, cansada, sorridente, presa, nesta prisão de portas abertas em sentido literal e literário. Entregues ao submisso destino, rosto marcado, entrançado, enigmático, de imperceptível felicidade ou tristeza, impenetrável a estranhos, impermeável a emoções, encerrado no seu tempo de pés descalços.”

Escrevi estas palavras há cinco anos, em São Tomé, enquanto imagens de mulheres com os filhos às costas me passavam diante dos olhos e a proximidade entre a minha, sua condição de mulher, me parecia aí tão distante.

Lembro-me, que para além do meu trabalho enquanto nutricionista, criei um pequeno grupo de teatro, com crianças e adolescentes. A presença masculina era dominante. As meninas estavam no rio, a lavar. As meninas estavam a tomar conta dos irmão mais novos. As meninas estavam a cozinhar. As meninas carregavam à cabeça o peso do Mundo em tachos e panelas. As meninas já há muito que tinham deixado de ser meninas.

Lembro-me, de uma vez no alpendre de casa, me terem perguntado se tinha filhos. Respondi que não. “Chez, já tá velha”. A Nádia, a miúda que fez tal observação, devia ter uns 20 anos, já tinha dois miúdos. Estava sozinha, o pai dos filhos emigrou para Inglaterra, onde entretanto arranjou outra. Não percebi se de algum modo ainda tinham uma relação. A possível… Já que é normal por lá o homem ter mais do que uma mulher.

As mulheres aceitam. São poucas as que podem ficar entregues à sua sorte. Que têm um trabalho que lhes dê sustento, a elas e aos filhos.

Há uma solidão quando pensamos o Mundo que não sabíamos ser também o nosso, nos olhares que reconhecemos antes de os havermos compreendido, num mergulhar profundo, de quem acorda a meio de um sono interrompido e é invadido por um espiral buraco negro de angústia.

Há uma tristeza, nesta forma dissimulada de humilhar, de menosprezar, de discriminar, desta sociedade marcadamente patriarcal, que também é a nossa. 

O marido. O chefe. O chefe de estado. Quase sempre homens. É que para uma mulher é mais difícil chegar ao topo. Espera-se demasiado. Espera-se que seja implacável, que seja ambiciosa, que não falte: mesmo que tenha os filhos a arder em febre! Esperem, pára tudo. Essa mulher não pode ter filhos. Não é suposto. Afinal era essa a condição. Foi-lhe questionado na entrevista de emprego. Esqueçam a natalidade. Venha daí a produtividade. Espera-se que seja a sopeira – o meu nome de eleição para a fada do lar – modelo de perfeição e asseio. Espera-se que a sopeira tenha bom aspecto. Assim a roçar a Gisele Bundchen. É assim, na novela, é ou não é? Ah! E que tenha pachorra para aturar o Quim. O jantar do Quim. As necessidades do Quim. Os amuos do Quim. Espera-se que se multiplique. Logo ela que já nasceu fragmentada. Um mero fragmento da costela de Adão. 

Hoje é o dia da Mulher e não paro de pensar no que  significa termos um dia dedicado a nós.

Hoje é o dia da Mulher e não paro de pensar em ti, agora bebé e um dia menina, mulher…

Enquanto me olhas, tão cheia de ti. Enquanto te deitas e rebolas no chão do supermercado, tão livre e ris como se não houvesse amanhã quando me exaspero a pedir que te levantes.

Quando engravidei, achava que ias ser um menino. Eu cismava que queria um menino. Hoje fico babada, quer te veja trepar sem medo para tudo o que tem mais do dobro da tua altura, quer perante o teu olhar compenetrado, enquanto me roubas os pincéis e lambuzas os lábios quando te ponho baton.

Hoje sei que és a melhor companhia que poderia desejar, a minha melhor amiga, mesmo quando me dizes que “Não”, sempre segura do que queres.  Quando me largas a mão e vais à tua vida e metes conversa com meio Mundo, só porque sim. Só porque o Mundo para ti é esse lugar, onde podes tudo. Só porque o Mundo para ti não tem género. O Mundo é esse lugar desconhecido, essa aventura a descobrir.

Não consigo deixar de pensar nesse bocadinho de mim que carregas dentro de ti. A felicidade estampada no teu/meu rosto, na certeza que terei todo o orgulho do Mundo, na Mulher em que tornarás.

Todos os dias dou graças por todas as nossas viagens, reais e imaginárias, a lugares desconhecidos, verdes falésias que moldam a brevidade dos humores, do tudo ou nada, da precariedade das alegrias e a facilidade com que se transformam lágrimas, em alegria, aprendizagem, humildade, aceitação, compaixão e amor, pelo outro, por nós próprios e por este Mundo imperfeito que todos os dias – bons e maus – meninas, moças, mulheres, e mães, ajudamos a nascer, crescer e construir.

Feliz dia da Mulher!

2 Comments

  • Fatima diz:

    Fizeste me chorar… Chorar por saber que tudo o que disseste ser uma realidade! O mau, e a alegria, a crença duma criança que todos somos iguais pelo seu olhar.
    As vezes quando em conversas entre amigas criticamos outras mulheres, por não terem filhos, ou não amamentam ou as outra coisa que nos engrandeça e enfraqueça a outra lembro – me sempre de uma coisa importante. Para essas mulheres se dedicarem ao trabalho, pagaram e pagam um preço alto. Ontem como hoje desbravam espaço pras nossas filhas, as mulheres das próximas gerações continuarem a conquistar o direito a optar, a decidir. Sem criticas sem cobranças da sociedade.
    Obrigada, por também dares o teu contributo Sandra

  • Sandra Santos diz:

    Olá Fátima! Somos muito duras umas com as outras e lá diz o ditado: a união faz a força e infelizmente temos apostado no caminho inverso. Mas aos pouquinhos conquistamos o nosso espaço e direitos. Convém não esquecer que é isso que é assinalado neste dia, que surgiu no fim do séc. XIX/início do séc. XX, no contexto das lutas femininas por melhores condições de trabalho e pelo direito de voto. E continua relevante enquanto houver desigualdade nas remunerações, mutilação genital, mulheres apedrejadas por falarem com um homem e infelizmente a lista não fica por aqui. Obrigada pelo seu comentário e um grande beijinho

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