Idealmente o bebé deveria continuar a beber leite materno, mesmo após o seu primeiro ano de vida. Por esta razão, a Organização Mundial de Saúde continua a recomendar o aleitamento materno até aos 2 anos ou mais.

Contudo, independentemente da razão, sabemos que nem sempre tal é possível e impera a questão, a partir dos 12 meses qual o melhor leite para o bebé? Os leites de crescimento: são a melhor opção?

Leite de crescimento o que é?

Os leites de crescimento estão à venda em qualquer superfície comercial, podem ser vendidos em pó ou líquidos e os pais compram-nos, julgando tratarem-se de produtos essenciais para o bom desenvolvimento dos seus filhos.

É certo que estes leites de crescimento são enriquecidos em muitas vitaminas e minerais, bem como ácidos gordos essenciais.

Porém, estes leites de crescimento ou enriquecidos em vitaminas e minerais, para crianças entre 1 e 3 anos e a partir dos 3 anos, podem custar o dobro ou até o triplo do leite tradicional, para além de serem frequentemente mais calóricos do que por exemplo o leite de vaca meio-gordo e com açúcar adicionado na sua composição, ao contrário do leite de vaca, que apenas contém lactose, um açúcar naturalmente presente.

Mesmo quando a marca reclama que o produto não tem açúcar, tal revela uma falta de transparência, uma vez que através da análise da lista de ingredientes de muitos dos produtos comercializados, detetamos a presença de maltodextrinas, um oligossacarídeo, que do ponto de vista bioquímico e fisiológico é muito semelhante a um açúcar.

Os fabricantes apostam na adição de açúcar, aroma a baunilha ou cereais, para cativar os mais novos. Habituadas ao sabor doce, as crianças podem ter uma adaptação mais difícil ao sabor natural dos alimentos. Consequentemente, mais tarde pode haver um maior risco de sofrer de obesidade e de formação de cáries dentárias.

Por esta razão, um estudo da DECO conclui que os leites enriquecidos em vitaminas e minerais não trazem vantagens adicionais face ao leite de vaca meio-gordo e alerta para o aporte excessivo de vitaminas e minerais, tais como A, E, C e D e de cálcio, salientando a importância da consulta do rótulo nutricional, na verificação  da contribuição do produto, para as doses diárias recomendadas desses micronutrientes.

Contudo, de acordo com o estudo EPACI – Estudo do Padrão de Alimentação e de Crescimento na Infância, as crianças portuguesas registam um consumo de energia superior às recomendadas e um consumo de proteínas correspondente a mais do dobro do recomendado, associado a uma maior prevalência e incidência de obesidade.

Tendo em conta que o leite de vaca tem mais proteína que os leites de crescimento, cuja vantagem reside numa composição proteica mais próxima da do leite materno de transição, deve-se alertar os pais para não abusarem no consumo de leite de vaca e derivados, bem como de outras fontes de proteína animal.

Para além da redução na contribuição de proteínas comparativamente com o leite de vaca, algumas fórmulas de crescimento apresentam ainda a inserção de certos componentes interessantes, tais como lactobacilos e bifidobactérias ou fibra solúvel, como frutooligossacarídeos que ajudam ao normal funcionamento do tubo digestivo.

Concluindo: Os chamados “leites de crescimento” não são indispensáveis para o bom desenvolvimento das crianças que, com uma alimentação variada, rica em fruta, vegetais, cereais, ovos e peixe gordo, conseguem obter todos os nutrientes de que precisam.

Porém, convém salientar que crianças cujo crescimento não se encontra dentro do expectável ou crianças cuja alimentação seja deficitária, por exemplo, pela recusa em comer, por seletividade alimentar ou falta de apetite, com risco de carências de vários micronutrientes, justifica-se a aposta neste género de produtos. Recomendo por isso que cada situação seja avaliada individualmente, por um profissional de saúde.

Nota: Os leites de crescimento (ou fórmulas 3, 4, 5), que vêm numa caixa e se apresentam em pó também são feitos a partir de leite de vaca. Digo isto porque atendo em consulta  muitas mães que dão fórmula aos seus filhos, desde os seus primeiros dias de vida mas depois não querem dar leite de vaca. Fórmula é leite de vaca, exceto algumas fórmulas muito específicas à base de soja e arroz.

Para mais informações sobre este tema dos leite de crescimento, consulte o artigo:

O que é que as crianças podem beber? (0-5 anos)

Referências bibliográficas:

  1. PORTUGAL Alimentação Saudável em números – 2014, Programa Nacional de promoção da Alimentação Saudável da Direção-Geral da Saúde
  2. Tabela de Composição dos Alimentos do INSA – Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge.
  3. Deco Proteste – Defesa do Consumidor

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